Como fazer uma redação dissertativa

Márcia Fernandes
Márcia Fernandes
Professora de Língua Portuguesa e Literatura

A redação dissertativa é um tipo de texto cuja função principal é apresentar ideias, explicações, reflexões e posicionamentos sobre determinado assunto.

Dentro desse gênero existe a redação dissertativo-argumentativa, que além de apresentar ideias busca defender um ponto de vista por meio de argumentos.

Esse é justamente o modelo exigido no ENEM e em diversos vestibulares, cuja estrutura mais utilizada é:

  • Introdução
  • Desenvolvimento 1
  • Desenvolvimento 2
  • Conclusão com proposta de intervenção

Ao longo deste conteúdo, veremos como construir cada uma dessas etapas.

Neste conteúdo você vai encontrar:

Introdução da redação

A introdução é o primeiro contato do leitor com o texto. Sua função é apresentar o assunto, inserir o leitor no contexto do tema e indicar qual será o posicionamento defendido.

No ENEM, normalmente a introdução é feita em 5 a 7 linhas.

Uma boa introdução precisa cumprir as seguintes funções:

  • contextualizar;
  • apresentar a tese;
  • indicar os argumentos que serão desenvolvidos.

Como contextualizar o tema

Contextualizar significa situar o tema dentro de uma realidade social, histórica, política, cultural ou científica para preparar a entrada no problema que será discutido.

A contextualização funciona como uma "porta de entrada" para o tema. Ela responde à pergunta "Em qual cenário esse problema existe?".

Você pode contextualizar utilizando:

  • acontecimentos históricos;
  • situações atuais;
  • dados sociais;
  • leis;
  • acontecimentos culturais;
  • filmes;
  • livros;
  • repertório sociocultural.

O repertório precisa aparecer de forma natural, explicando como ele se conecta ao tema.

Exemplo de contextualização:

O avanço tecnológico transformou profundamente a circulação de informações no século XXI. Nesse contexto, o sociólogo Zygmunt Bauman afirma que a sociedade contemporânea caracteriza-se pela rapidez e fluidez das relações humanas. Esse cenário também impacta a forma como conteúdos são consumidos, favorecendo a disseminação acelerada de informações falsas.

Como construir a tese

A tese é a opinião central que será defendida ao longo do texto. Ela precisa responder à pergunta "Qual é a minha posição sobre esse problema?"

Uma tese eficiente deve ser: clara, objetiva, relacionada ao tema, apresentar causas ou consequências.

Passo a passo

1. Identifique o problema central

Tema: Desinformação no Brasil

Problema: disseminação de notícias falsas

2. Pergunte: por que esse problema acontece?

Possíveis respostas: falta de educação midiática; falhas nos mecanismos digitais.

3. Transforme essas ideias em frase

Exemplo: A disseminação de notícias falsas no país é agravada pela ausência de educação midiática e pela fragilidade dos mecanismos de controle digital.

Observe:

Problema: disseminação de notícias falsas

Causa 1: ausência de educação midiática

Causa 2: fragilidade dos mecanismos digitais

Essas causas se transformarão nos argumentos do desenvolvimento.

Como apresentar os argumentos na introdução

Depois da tese, o aluno precisa indicar os caminhos argumentativos que serão desenvolvidos no texto.

Esses argumentos funcionam como um "mapa" para o leitor, porque mostram quais aspectos serão aprofundados no próximos parágrafos.

Passo a passo

1. Observe as causas apresentadas na tese

Exemplo: ausência de educação midiática e fragilidade do controle digital.

2. Transforme essas causas em uma frase de apresentação

Exemplo:

Assim, a persistência desse problema relaciona-se tanto à ausência de educação midiática quanto à insuficiência dos mecanismos de fiscalização digital.

Argumento 1: ausência de educação midiática.

Argumento 2: insuficiência da fiscalização.

Esses serão explicados no desenvolvimento 1 e no desenvolvimento 2.

Como evitar erros mais comuns

Antes de terminar a introdução, pergunte:

  • Eu apenas apresentei o assunto ou já comecei a explicá-lo profundamente? (EVITA INTRODUÇÃO LONGA DEMAIS)
  • Se eu retirar essa referência, meu texto perde força? - Se a resposta for "não", provavelmente o repertório foi usado apenas para ornamentação. (EVITA DESCONEXÃO COM O TEMA)
  • Quais causas ou fatores explicam esse problema? - Se não há respostas no texto, a tese é vaga. (EVITA FALTA DE POSICIONAMENTO)
  • Em até duas frases eu cheguei ao tema principal? (EVITA TENTAR "FILOSOFAR" DEMAIS)

Exemplo de introdução

O avanço tecnológico transformou a forma como a sociedade produz e consome informações. Nesse contexto, a disseminação de notícias falsas tornou-se um problema social crescente no Brasil. Assim, esse cenário é agravado pela ausência de educação midiática e pela fragilidade dos mecanismos de controle digital.

Desenvolvimento da redação

É a parte em que os argumentos apresentados na introdução são aprofundados.

No ENEM, normalmente o desenvolvimento é feito em dois parágrafos (desenvolvimento 1 e desenvolvimento 2), cada uma deles com 7 a 9 linhas.

Um bom desenvolvimento precisa cumprir as seguintes funções:

  • retomar um argumento apresentado na introdução;
  • aprofundar a discussão;
  • apresentar repertório sociocultural;
  • analisar criticamente a questão;
  • explicar causas, consequências ou impactos;
  • estabelecer conexão lógica entre as ideias;
  • reforçar a tese.

Como construir e desenvolver argumento

O argumento explica uma relação lógica.

Passo a passo

1. Apresente a ideia central

2. Use repertório

3. Explique

4. Mostre consequência

Exemplo:

Em primeiro lugar, a ausência de educação midiática contribui significativamente para a expansão da desinformação. Segundo Paulo Freire, a educação deve desenvolver a autonomia intelectual dos indivíduos. Entretanto, a deficiência na formação crítica impede que muitos cidadãos verifiquem fontes e avaliem conteúdos digitais, tornando-os vulneráveis à manipulação informacional.

Identificando:

1. Ideia central: ausência de educação midiática

2. Repertório: Paulo Freire

3. Explicação: falta de formação crítica

4. Consequência: vulnerabilidade à manipulação

Conectivos e operadores argumentativos

Os conectivos são palavras ou expressões que ajudam a organizar o raciocínio e conectar as partes do texto. Sem eles, a redação pode parecer uma sequência de frases soltas.

Para iniciar argumento:

  • em primeiro lugar;
  • inicialmente;
  • primeiramente.

Para acrescentar:

  • além disso;
  • ademais;
  • também.

Para oposição:

  • entretanto;
  • contudo;
  • porém.

Para explicar:

  • porque;
  • uma vez que;
  • visto que.

Para consequência:

  • portanto;
  • assim;
  • logo;
  • dessa forma.

Para exemplificar:

  • por exemplo;
  • como ocorre em.

Dica importante: evite repetir sempre o mesmo conectivo.

Exemplo de desenvolvimento

Em primeiro lugar, a ausência de educação midiática contribui significativamente para a expansão da desinformação. Segundo Paulo Freire, a educação deve desenvolver a autonomia intelectual dos indivíduos. Entretanto, a deficiência na formação crítica impede que muitos cidadãos verifiquem fontes e avaliem conteúdos digitais, tornando-os vulneráveis à manipulação informacional.

Ademais, a fragilidade dos mecanismos de controle digital intensifica esse cenário. O documentário "Privacidade Hackeada" mostra como dados pessoais podem influenciar comportamentos e escolhas sociais. Dessa forma, a ausência de mecanismos eficientes de fiscalização amplia a circulação de conteúdos manipuladores.

Conclusão da redação

A conclusão é o momento de fechar o raciocínio desenvolvido ao longo do texto.

No ENEM, ela é feita em 5 a 7 linhas e possui uma função específica: apresentar uma proposta de intervenção relacionada aos problemas discutidos. Pense na conclusão como resposta para a pergunta "Depois de tudo o que foi discutido, o que deve ser feito?".

Uma boa conclusão precisa:

  • retomar o tema;
  • retomar a tese;
  • apresentar solução.

Como fazer a proposta de intervenção

No ENEM, a conclusão deve apresentar solução para o problema, a chamada proposta de intervenção.

A proposta precisa ter cinco elementos:

Agente: Quem fará?, por exemplo: Ministério da Educação.

Ação: O que será feito?, por exemplo: promover programas educativos.

Meio/modo: Como será feito?, por exemplo: por meio de palestras e projetos escolares.

Finalidade: Para quê?, por exemplo: combater a desinformação.

Detalhamento: explicação mais detalhada acerca do agente, ação, meio/modo ou finalidade, por exemplo: palestras conduzidas por especialistas em comunicação digital.

Exemplo de conclusão

Portanto, medidas precisam ser adotadas para reduzir a disseminação da desinformação no Brasil. Cabe ao Ministério da Educação implementar programas de educação midiática nas escolas, por meio de palestras e projetos pedagógicos conduzidos por especialistas, a fim de desenvolver o senso crítico dos estudantes. Além disso, as plataformas digitais devem ampliar mecanismos de verificação de conteúdo para minimizar a circulação de notícias falsas.

Exemplo de redação dissertativa-argumentativa pronta (com análise)

Confira a redação da participante Carolina Mendes Pereira, que tirou nota 1000 com o tema “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet” no Enem 2018:

Em sua canção “Pela Internet”, o cantor brasileiro Gilberto Gil louva a quantidade de informações disponibilizadas pelas plataformas digitais para seus usuários. No entanto, com o avanço de algoritmos e mecanismos de controle de dados desenvolvidos por empresas de aplicativos e redes sociais, essa abundância vem sendo restringida e as notícias, e produtos culturais vêm sendo cada vez mais direcionados – uma conjuntura atual apta a moldar os
hábitos e a informatividade dos usuários. Desse modo, tal manipulação do comportamento de usuários pela seleção prévia de dados é inconcebível e merece um olhar mais crítico de enfrentamento.

Em primeiro lugar, é válido reconhecer como esse panorama supracitado é capaz de limitar a própria cidadania do indivíduo. Acerca disso, é pertinente trazer o discurso do filósofo Jürgen Habermas, no qual ele conceitua a ação comunicativa: esta consiste na capacidade de uma pessoa em defender seus interesses e demonstrar o que acha melhor para a comunidade, demandando ampla informatividade prévia. Assim, sabendo que a cidadania consiste na luta pelo bem-estar social, caso os sujeitos não possuam um pleno conhecimento da realidade na qual estão inseridos e de como seu próximo pode desfrutar do bem comum – já que suas fontes de informação estão direcionadas –, eles serão incapazes de assumir plena defesa pelo coletivo. Logo, a manipulação do comportamento não pode ser aceita em nome do combate, também, ao individualismo e do zelo pelo bem grupal.

Em segundo lugar, vale salientar como o controle de dados pela internet vai de encontro à concepção do indivíduo pós-moderno. Isso porque, de acordo com o filósofo pós-estruturalista Stuart-Hall, o sujeito inserido na pós-modernidade é dotado de múltiplas identidades. Sendo assim, as preferências e ideias das pessoas estão em constante interação, o que pode ser limitado pela prévia seleção de informações, comerciais, produtos, entre outros. Por fim, seria negligente não notar como a tentativa de tais algoritmos de criar universos culturais adequados a um gosto de seu usuário criam uma falsa sensação de livre-arbítrio e tolhe os múltiplos interesses e identidades que um sujeito poderia assumir.

Portanto, são necessárias medidas capazes de mitigar essa problemática. Para tanto, as instituições escolares são responsáveis pela educação digital e emancipação de seus alunos, com o intuito de deixá-los cientes dos mecanismos utilizados pelas novas tecnologias de comunicação e informação e torná-los mais críticos. Isso pode ser feito pela abordagem da temática, desde o ensino fundamental – uma vez que as gerações estão, cada vez mais cedo, imersas na realidade das novas tecnologias – , de maneira lúdica e adaptada à faixa etária, contando com a capacitação prévia dos professores acerca dos novos meios comunicativos. Por meio, também, de palestras com profissionais das áreas da informática que expliquem como os alunos poderão ampliar seu meio de informações e demonstrem como lidar com tais seletividades, haverá um caminho traçado para uma sociedade emancipada.

Análise da introdução da redação pronta

A participante inicia contextualizando o tema com plataformas digitais e apresenta repertório sociocultural ao mencionar a canção "Pela Internet", de Gilberto Gil.

Identificação:

1. Contextualização: canção "Pela Internet"

3. Tese: as informações disponibilizadas na internet acabam sendo restringidas devido ao controle de dados, o que é inaceitável e exige um olhar crítico de enfrentamento

4. Argumentos apresentados:

  • avanço dos algoritmos;
  • direcionamento de conteúdos;
  • necessidade de visão crítica.

Análise do desenvolvimento da redação pronta

No desenvolvimento, a autora aprofunda cada argumento apresentado.

Desenvolvimento 1:

1. Argumento retomado: direcionamento de informações

2. Repertório: Habermas

3. Análise crítica: restrição da cidadania

4. Conclusão lógica: limitação da participação social

Desenvolvimento 2:

1. Argumento retomado: algoritmos e controle

2. Repertório: Stuart Hall

3. Análise crítica: influência sobre identidades

4. Conclusão lógica: fortalecimento da manipulação digital

Análise da conclusão da redação pronta

No parágrafo final aparecem medidas para reduzir o problema.

Identificação:

1. Agente: instituições escolares

2. Ação: promover educação digital

3. Meio: abordagem da temática e também de palestras

4. Detalhamento: de maneira lúdica e adaptada à faixa etária

5. Finalidade: deixar os alunos cientes dos mecanismos utilizados pelas novas tecnologias e informação e torná-los mais críticos

Leia também:

Esqueleto de redação: modelo e estrutura passo a passo

O que é a tese na redação: veja exemplos e aprenda a fazer

Proposta de Intervenção na redação do ENEM: o que é e como fazer

5 passos simples para fazer uma BOA REDAÇÃO (ajudam mesmo!) Ver no YouTube
Márcia Fernandes
Márcia Fernandes
Professora, produz conteúdos educativos desde 2015. Licenciada em Letras pela Universidade Católica de Santos (habilitação para Ensino Fundamental II e Ensino Médio) e formada no Curso de Magistério (habilitação para Educação Infantil e Ensino Fundamental I).